segunda-feira, 16 de junho de 2014

Textos de Filosofia Antiga


Sobre Mito e Filosofia podemos afirmar o seguinte:
Os poemas homéricos, em razão de muitos de seus componentes, já contêm características essenciais da compreensão de mundo grega que, posteriormente, se revelaram importantes para o surgimento da filosofia.
O naturalismo, que se manifesta nas origens da filosofia, já se evidencia na própria religiosidade grega, na medida em que nem homens nem deuses são compreendidos como perfeitos.
A humanização dos deuses na religião grega, que os entende movidos por sentimentos similares aos dos homens, contribuiu para o processo de racionalização da cultura grega, auxiliando o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico.


“Do arco o nome é vida e a obra é morte.” (HERÁCLITO. Sobre a natureza. Trad. de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 56. Coleção Os Pensadores)
Este fragmento ilustra bem o pensamento de Heráclito, que acreditou ser o mundo o eterno fluir, comparado a um rio no qual entramos e não entramos. É possível afirmar que tudo está representado pela mudança e pelo fluxo eterno de todas as coisas. Nada está imóvel, tudo está em um eterno devir. Devir constante que transforma a própria vida em morte e a morte em vida.


“Na filosofia de Parmênides preludia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele o pensava, mas, do fato que podia pensá-lo, ele concluía que ele precisava existir: uma conclusão que repousa sobre o pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que vai à essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parmênides, o elemento de nosso pensamento não está presente na intuição, mas é trazido de outra parte, de um mundo extra-sensível ao qual nós temos um acesso direto através do pensamento.” (NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na época trágica dos gregos. Trad. Carlos A. R. de Moura. In Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 151. Coleção Os Pensadores.)

Para Parmênides, o Ser e a Verdade coincidem, porque é impossível a Verdade residir naquilo que Não-é: somente o Ser pode ser pensado e dito. Assim, pode-se afirmar com segurança que Parmênides rejeita a experiência como fonte da verdade, pois, para ele, o Ser não pode ser percebido pelos sentidos. O pensamento, para Parmênides, é o meio adequado para se chegar à essência das coisas, ao Ser, porque os dados dos sentidos não são suficientes para apreender a essência. Na impermanência e na opinião residem o não-ser, pois somente aquilo que é de acordo com a sua verdade e a sua essência é o ser.

“Necessário é o dizer e pensar que (o) ente é; pois é ser, e nada não é; isto eu te mando considerar. Pois primeiro desta via de inquérito eu te afasto, mas depois daquela outra, em que mortais que nada sabem erram, duplas cabeças, pois o imediato em seus peitos dirige errante pensamento.” (PARMÊNIDES. Sobre a natureza. Trad. de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 88. Coleção. Os Pensadores.). 
Não se pode dizer “não-ser é”, porque “não-ser” é impensável.
Dizer não-ser é não não-ser, é o mesmo que afirmar não-ser não é.

Após a grande descoberta de Parmênides em relação à origem de todas as coisas, a saber, que tudo advém do Ser, que é imóvel, indivisível e sobre o qual nada mais perfeito pode ser pensado. O pensamento pré-socrático entra em crise e os pensadores a partir daí passam a ser pluralistas, isso significa que, tendo em vista que o Ser é indivisível, os pensadores passaram a nomear mais de um elemento como constitutivo da origem do mundo.






quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mora na Filosofia


Dando boas vindas a todos os estudantes de filosofia, que nesse ano possamos apreender e ensinar muita filosofia. Para que nossa vivência no mundo faça uma diferença, que nossa postura crítica diante da vida nos mostre que a felicidade é o caminho e que nossa existência pode ter um saldo positivo para o mundo!

Mora na Filosofia
Pra que rimar amor e dor?

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Os regimes de Jacques Rancière

No lugar da palavra forma, Rancière usa a palavra “regime” para descrever modalidades de identificação da arte. O primeiro é o regime ético das imagens. Trata-se de saber que o modo de ser das imagens (das figuras enunciadas num texto, num filme, numa pintura) concerne no caráter (ethos) à maneira de ser dos indivíduos e das coletividades. A arte, nesse caso, tem uma finalidade específica de educar e de instruir pelo exemplo do padrão que é demonstrado, figurado.
É possível vislumbrar o teatro político usado por militantes comunistas e anarquistas para fins didáticos de conscientização da classe operária, ou ainda o herói do filme hollywoodiano que não solta à mão do vilão quando este está prestes a despencar de um desfiladeiro. As regras éticas-morais de uma comunidade cristã aparecem expressamente nesta cena, já que segundo a doutrina devemos perdoar àqueles que nos fizeram mal. O que se mostra nesta forma de arte é a “moral da história” que diz claramente em que tipo de caráter o público deve se espelhar.
O segundo regime é o poético ou representativo. Nesta forma de arte, é a noção de representação (mimesis) que organiza as maneiras de fazer, ver e julgar. A arte poética remonta o esquema descrito por Aristóteles como a representação (imitação) do mundo, no qual as regras específicas estão separadas e articuladas entre si. O grau de adequação de tais regras, em consonância com a atenção ao apelo moral da comunidade sensível, para a qual a obra é direcionada, define assim as maneiras de fazer e de apreciar as representações bem feitas. A configuração das regras nesse regime, ou forma de arte, é inevitável e conscientemente uma analogia com

a visão hierárquica global das ocupações políticas e sociais: o primado representativo da ação sobre os caracteres, ou da narração sobre a descrição, a hierarquia dos gêneros segundo a dignidade de seus temas, e o próprio primado da arte da palavra, da palavra em ato, entram em analogia com toda uma visão hierárquica da comunidade. (RANCIÈRE, 2005, p. 32).

Nesse momento, a função política da arte não está necessariamente nas imagens, nem no conteúdo veiculado, muito menos na assimilação deste, mas no formato que expressa alusivamente os lugares determinados para a ocupação de cada um. Isto é, há aquele que tem a palavra e aquele que deve ouvir o primeiro. Rancière contrapõe as duas primeiras formas com o regime estético da arte. Nascido na modernidade, este

não se faz mais por uma distinção no interior das maneiras de fazer, mas pela distinção de um modo de ser sensível próprio aos produtos da arte. A palavra ‘estética’ não remete a uma teoria da sensibilidade, de gosto ou do prazer dos amadores de arte. Remete, propriamente, ao modo de ser específico daquilo que pertence à arte, ao modo de ser de seus objetos. [...] as coisas são identificadas por pertencerem a um regime específico do sensível. Esse sensível [...] é habitado pela potência do pensamento que se tornou estranho a si mesmo: produto idêntico ao não-produto, saber transformado em não-saber, logos idêntico a um pathos, intenção do inintencional etc. (RANCIÈRE, 2005, p. 32).

O regime estético é o paradoxo encarnado na arte, ele desobriga esta a toda e qualquer regra específica e de toda hierarquia de temas, gêneros e artes. É uma forma que atenta contra as outras formas, contra as hierarquias. Na forma estética, a arte deixa de ser imitação, para ser criação, deixa de representar o mundo, para constituir o próprio mundo. Um mundo sem hierarquias, sem regras, sem qualquer preocupação com a constituição do caráter do público através da figuração das imagens.

A partir desta forma pode-se agora apresentar (sem precisar educar ou doutrinar) à política uma via alternativa, que paute não mais a exclusão, o totalitário e o homogêneo, mas a convivência com os diferentes, a coexistência dos desiguais que funcionam sob lógicas de regras dessemelhantes. Com a intenção de tornar a própria política mais própria, mais autônoma, e principalmente mais libertadora.

DEBATE: "A criminalização da cultura popular"





O debate intitulado " A criminalização da cultura popular", acontecerá no próximo sábado dia 23, às 10:30, no Centro de Defesa dos Direitos Humanos. A proposta é discutir as diferentes formas de criminalização da cultura popular nos dias de hoje, seja pelos meios de comunicação, pela via institucional e nos esteriótipos e preconceitos que demarcam a diferença entre as classes sociais. 
O debate contará com a presença:

Guilherme Pimentel - Advogado e fundador da APAFunk - Associação de Profissionais e Amigos do Funk

MC Leonardo - Junto com seu irmão, Junior, o MC Leonardo é histórico no funk brasileiro, autor de músicas como "Rap das Armas" e "Endereço dos Bailes". É também fundador da APAFUNK

Repper Fiell - Integrante do Visão da Favela Brasil, o Repper atua com Hip Hop, vídeos e rádio comunitária na favela Santa Marta

Gas pa: faz parte do "Alternativa Sindical Socialista". Rapper do grupo " O Levante" e do grupo " Lutarmada".

Alexandre Goulart (Mediador) - Psicólogo e educador do Programa ArteEducação/CDDH

Contamos com a presença de todos!!!

Página do evento no facebook:
https://www.facebook.com/events/653221324730539/?fref=ts

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Aula Pública: Em busca de uma cultura de PAZ, a necessária desnaturalização da violência #ocupacoreto


    • Quinta dia 14/11/2013
    • 19:00

  • Coreto da Praça da Liberdade, Petrópolis.

  • Mais uma atividade do Projeto #ocupacoreto com o professor de História Pedro Henry Cross, uma realização do Coletivo Vinagrete.


    A aula vai tratar fundamentalmente de violência do Estado, em todos os seus aspectos, das ausências (garantias constitucionais de direitos) às presenças (repressão policial sistemática). Vai buscar demonstrar que a violência é uma construção social e que pode e deve ser banida pra esfera dos incidentes, e não ser naturalizada como algo aceitável em larga escala.
    Por último, vai para o caminho de construir a noção de que só uma cultura de paz, baseada na ampliação dos direitos humanos é capaz de fazer um real enfrentamento a banalização dos recursos violentos.

    OBS: em caso de chuva o evento será adiado.

    www.coletivovinagrete.blogspot.com.br

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Gosto muito mais de mim

A música da comunidade, é a catarse de todos os sentimentos do próprio ser humano, dessa maneira ao longo dos anos nas comunidades de favela brasileiras, vemos o movimento do funk como instaurador de diversas realidades. Aquelas de combate, de denuncia, de revolta, de protesto, a partir daí se funda um universo de passagens para o funk melodi e o próprio funk ostentação. Mas o foco de nosso filme concentrar-se-á na sexualidade envolvida no funk, e mais, de que modo a mulher busca através do funk uma nova postura feminista. Assim, podemos desenvolver esse tema da sexualidade através da mulher que levanta novas bandeiras, como por exemplo: trair da mesma forma que o homem, transar da mesma forma que o homem. Levantando a bandeira dos direitos iguais para homens e mulheres, sempre retratando a realidade da mulher que é traída, que apanha do seu companheiro, que sofre e que precisa se libertar, precisa se vingar.
O filme não tem a pretensão de dizer a verdade que se passa na vida dessas mulheres, muito pelo contrário, queremos apenas mostrar um recorte de suas vidas. Com as ideias e as diferentes concepções da realidade que cada uma traz, que cada uma expõe em sua fala. Nossa intenção é de demonstrar a possibilidade de um novo olhar em direção a vivências diversas, sem pré-julgar de bom ou mal, belo ou feio.
Aproveitem!

Quero críticas depois!


domingo, 13 de outubro de 2013

Laranja Mecânica: a violência da sociedade + Curiosidades

Com seu livro, satírico, ultra-violento e pornográfico “Laranja Mecânica” de 1962, Anthony Burgess proporcionou a Stanley Kubrick mais uma de suas obras-primas. Laranja Mecânica chegou aos cinemas em 1971, narrando às desventuras do carismático sociopata, Alex (Malcolm McDowell) e seus droogs (Pete, Georgie e Dim) em uma Grã-Bretanha distópica e brutal.
Na época do lançamento a obra assustou, chegou a ser proibida, e deixou de ser exibida em muitos países, mas ao mesmo tempo foi elogiada pelos críticos. Kubrick sabia exatamente o que estava fazendo. A questão da violência naturalizada no filme é posta em questão tanto de forma social quanto psicológica.
Somos transportados para a mente do sujeito mais irado com tudo, completamente cínico, e dono de suas próprias razões.  Ele espanca, estupra e está para além de qualquer regra social. Alex é um ser amoral, que desconhece as mínimas e convenientes regras da sociedade. Alex é um jovem infrator que sai com sua gangue nas noites para aterrorizar mendigos, estuprar mulheres casadas e espancar seus maridos. Nos intervalos o grupo descansa em um bar, no qual tomam leite (ultraviolencemilk) emergindo dos seios de uma boneca metamórfica.
No entanto, em uma de suas aventuras, Alex é traído por seus companheiros da conceitual ultraviolência, e é pego pela polícia. Na prisão, converte-se à religião, e transforma-se numa espécie de aprendiz dos bons e respeitosos costumes, pela influência do padre/pastor/bispo do local.
Assim, ele se vê com a oportunidade de participar de um teste, uma cura, que traz de volta os conceitos morais e a saúde mental dos pacientes infectados pela doença social da revolta e da "consciência defeituosa" (o Método Ludovico). Alex se entrega a chance sair daquela teia de repressão psicológica. No entanto, o tratamento que ele passa é bem mais violento que qualquer um de seus atos cometidos anteriormente. As sequências do "cinema moral", a camisa de forças, os grampos que mantinham os olhos “glases” de Alex abertos todo o tempo, para não evitar que visse nenhuma das cenas. São uma comprovação da brutalidade e de uma tentativa de curar violência com mais violência.



A proposta de evidenciar essa cura, no "teatro de tentações", é extraordinariamente eficiente no que concerne identificar, através dos significados da pessoa doente, a devolução, ou reestruturação dos seus conceitos como pessoa pronta a residir no meio social. “O que importa é que funciona!”
Os diálogos construídos, a destreza dos ângulos (belamente fotografados), os cortes, a trilha e a magnífica interpretação de McDowell são primordiais para sustentar a proposta do filme. Laranja Mecânica como nenhum outro filme, delata a contribuição do homem como o simples e corrigível culpado de seus atos. Declarar a cura desses indivíduos por um tratamento tão doloroso quanto, é bem mais amargurante do que aceitar as disposições que assolam a sociedade de crime e porventura o castigo de suas colaborações em dignificar essas relações de culpabilidade.
O filme é tão impactante, pois modifica nossas visões morais. Kubrick é capaz de transformar uma cena de brutal violência, deixando-a encantadora e bela. Ao utilizar Beethoven na trilha sonora e abusar de cores e ângulos únicos, o diretor nos leva para um mundo que está fora de nossa realidade. Provocando uma oscilação de sentimentos inigualáveis, nos fazendo pensar sobre as falidas instituições da família, da política, da ciência, da religião e do próprio homem corroborado pelos sentimentos e prazeres passageiros. O mesmo prazer que leva à desconstrução de seu próprio Eu.

Agora algumas curiosidades sobre o filme:

O Korova Milk Bar foi o único set construído especialmente para o filme. Foi batizado pela palavra russa para vaca e suas esculturas foram baseadas no trabalho do escultor Allen Jones (uma as pinturas da parede apareceria novamente em O Iluminado, 1980). Stanley Kubrick fez com que os dispensers de leite fossem esvaziados, lavados e reabastecidos a cada hora, pois o leite coalhava sob as luzes do estúdio.


Alex cantar "Singing in the Rain" enquanto ataca o escritor e sua esposa não estava no roteiro. Kubrick passou quatro dias experimentando com a cena, pois a julgava muito convencional. Eventualmente, pediu a Malcolm McDowell se ele poderia dançar. Eles fizeram a cena novamente, desta vez com McDowell cantando e dançando a única música que ele conseguira lembrar na hora. Kubrick ficou tão impressionado que logo comprou os direitos do tema de Cantando na Chuva por US$ 10 mil. Quando McDowell encontrou Gene Kelly, anos depois, em uma festa, o ator veterano se retirou indignado. Kelly teria ficado profundamente decepcionado com a forma como sua versão de "Singing in the Rain" foi usada em Laranja Mecânica.
Kubrick pediu ao Pink Floyd para usar "Atom Heart Mother", faixa que abre o álbum hômonimo da banda, na trilha sonora. Porém, como o diretor queria uso ilimitado da composição, a banda rejeitou a proposta. Quando Alex visita a loja de discos, é possível ver nas prateleiras a trilha de 2001 - Uma Odisseia no Espaço e Atom Heart Mother. Outros discos visíveis na loja são: Lorca, de Tim Buckley, As Your Mind Flies, do Rare Bird, Deja Vu, de Crosby Stills Nash & Young, The Transfiguration Of Blind Joe Death, de John Fahey, Magical Mystery Tour, dos Beatles, After The Goldrush, de Neil Young, The Chicago Transit Authority, do Chicago e In The Summertime, do Mungo Jerry.

Apesar de interpretar um adolescente de 15 anos (17 na última parte) Malcolm McDowell tinha 27 anos na época das filmagens. A língua falada por Alex e seus droogs é o Nadsat, uma mistura de inglês, russo e gírias londrinas.



O médico que acompanha Alex enquanto ele é forçado a assistir filmes violentos é um médico de verdade, presente para assegurar que os olhos de McDowell não secassem. Seus olhos foram anestesiados para que as cenas de tortura fossem filmadas sem tanto desconforto. Ainda sim, suas córneas foram arranhadas pelos grampos de metal.
A acelerada cena de sexo foi filmada em um único take de 28 minutos. Já a cena final do filme foi concluída depois de 74 tentativas.

Na cena em que Alex fala com o padre sobre a terapia Ludovico, é possível ver os prisioneiros marchando em círculo no pátio. A cena recria uma pintura de Vincent van Gogh, Prisioneiros se Exercitando (1890). 


 Enquanto gravava a cena no quarto de Alex, Kubrick achando que faltava um elemento para deixar a cena mais complexa descobriu que o ator Malcolm McDowell tinha medo de cobra. O diretor não pensou duas vezes, e colocou uma cobra como animal de estimação de Alex. A cena ficou mais tensa e vemos também outros elementos articulados à cobra (Basil), a imagem de Jesus dançando ao som de Beethoven. Logo abaixo da imagem da cobra, fazendo uma referencia ao pecado original.